“Usar instrumentos de plástico cria uma consciência que extrapola a música”

Publicado em: 30/11/2017
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Incentivar a criatividade é um dos principais objetivos do multi-intrumentista e luthier paulista, Fernando Sardo. Pelo segundo ano consecutivo, ele participa do projeto Orquestra Plástica do NEOJIBA. Nesta entrevista, Fernando Sardo fala sobre as experiências vividas em Salvador nas oficinas de arte educação que envolvem a fabricação de instrumentos plásticos, a partir do cano PVC e sua abordagem ecológica. A Orquestra Plástica do NEOJIBA é um projeto de desenvolvimento e difusão de uma tecnologia social, através da construção de instrumentos com canos de PVC. A iniciativa também capacita jovens de Salvador e do interior da Bahia no ofício da lutheria. De 6 a 14 de novembro 2017, os luthiers e jovens aprendizes da Orquestra Plástica participaram de uma oficina de formação com Sardo, no Atelier de Lutheria de Plástico do NEOJIBA, em Simões Filho, no qual foram criados protótipos de plásticos de instrumentos de sopro e metais. O projeto conta com o patrocínio da Braskem e do Governo do Estado, através do Programa Fazcultura, desde seu primeiro ano.

Quais pontos você destacaria no desenvolvimento dos instrumentos de plásticos destinados à educação musical para iniciantes a partir de 2016, no NEOJIBA?

Houve uma evolução natural neste período. Desde a primeira vez que fui chamado, minha intenção foi desenvolver instrumentos de rápida fabricação e que fossem mais econômicos. Percebo que estes instrumentos estão também mais resistentes e leves. Também simplificamos o processo de fabricação, de tal forma que um profissional do NEOJIBA possa levar este instrumento para ser construído pelas próprias crianças em uma oficina. Este ano, aprimoramos a forma de construção, percebendo detalhes que precisam ser aprimorados.

 

Qual o retorno você teve dos professores, monitores e jovens musicistas que utilizaram os instrumentos fabricados no ano passado?

Esse é um trabalho que precisa ser aprimorado constantemente. Ao inventar um instrumento, ele precisa ser experimentado pelas pessoas por um período. Em seguida, os luthiers precisam ouvir o feedback das pessoas, para que elas deem sugestões e façam seus pedidos de mudança. Esse ano, por exemplo, os professores perceberam que para uma formação musical inicial, não era necessário um violino com quatro cordas, mas sim com duas cordas. Vamos fazer esta alteração, buscando sempre manter as espessuras e detalhes perfeitos. Assim, quando as crianças passarem a usar um instrumento convencional, elas não sentirão muita diferença de um instrumento de plástico para o outro.

Os luthiers e jovens aprendizes da Orquestra Plástica participaram de uma oficina de formação com Sardo.

Os luthiers e jovens aprendizes da Orquestra Plástica participaram de uma oficina de formação com Sardo.

 

O que você acredita que é possível atingir com a produção de instrumentos de plástico?

Através dos instrumentos de plástico, conseguimos atingir um grande número de pessoas, fazendo um instrumento de baixo custo, que propicia à criança contar com o recurso necessário para aulas de iniciação musical. Além disso, os instrumentos de plástico despertam para a sustentabilidade. A matéria-prima utilizada (canos de PVC) está em nosso cotidiano, sendo assim as crianças podem começar a olhar para este recurso como algo que pode ser utilizado para criar outro objeto. No nosso caso, instrumentos musicais.

Quais impactos você visualiza nessa relação educação musical e sustentabilidade?

Os impactos são muitos e nem sempre conseguimos medir, pois as reflexões e percepções que despertam são muito individuais. Isso desperta autonomia no indivíduo para realizar uma ação, através de um recurso novo e sustentável. Isso cria também uma consciência autônoma e sustentável que tenho certeza que extrapola a música e o instrumento musical. Dessa forma, o ser humano começa a ter uma consciência de que nem tudo é objeto de consumo, ainda mais em uma sociedade que tem sido devastada pelo excesso de consumo. Para nós, na nossa época, essa consciência é um susto e uma utopia. Mas acredito que para as gerações futuras, a consciência ecológica e de reciclagem, vai levar à autonomia na criação de seus próprios recursos diante de uma necessidade, que está ligada a uma consciência menos consumista. Isso foi o que aprendi no decorrer da construção de instrumentos musicais de plástico e no compartilhamento desta experiência com outras pessoas.

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