Maestrina Ligia Amadio fala sobre seus projetos e trajetória

Publicado em: 23/03/2017
Foto por Isabela Senatore

Ligia Amadio é uma das mais destacadas regentes brasileiras da atualidade. Notabilizou-se internacionalmente por sua reconhecida exigência artística, seu carisma e suas vibrantes performances. Em 2017 assume o cargo de regente titular e diretora artística da Filarmônica de Montevidéu. Iniciou sua formação musical aos cinco anos de idade sob a orientação da profa. Maria Cristina da Ponta Fiore. Após haver concluído o curso de Engenharia de Produção na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), em 1985, realizou o Bacharelado em Música – com habilitação em regência – e o Mestrado em Artes na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). No Brasil, seus principais mentores foram Henrique Gregori, Eleazar de Carvalho, H.J.Koellreutter, Almeida Prado e Lutero Rodrigues.

 

Você é uma das responsáveis pela organização do I Simpósio Internacional Mulheres Regentes, realizado em outubro de 2016 em São Paulo. Também está muito engajada nas questões de gênero no universo da música orquestral na América Latina. Quais são os principais desafios para as mulheres no mundo da música? 

Nós mulheres temos uma trajetória muito solitária. Eu nunca fui engajada, no sentido que eu estava muito ocupada estudando e fazendo o meu próprio trabalho, construindo minha própria carreira. Mas a esta altura, já me sinto mais tranquila e numa situação mais estável para poder me dedicar aos outros – às outras em particular. De fato, as mulheres enfrentam muito mais dificuldades do que os homens em suas trajetórias profissionais. Não há sombra de dúvida. Acredito que, quando a gente atinge um certo patamar de respeitabilidade, de reconhecimento, só a nossa presença já abre portas para outras mulheres. Então realizar esse Simpósio foi uma ideia que eu tive junto com outras colegas regentes para discutir os nossos caminhos solitários. O que ocorreu foi que regentes de outros países se juntaram a nós, apostaram na proposta desse encontro, financiaram suas próprias passagens e hospedagem para participar. Mulheres regentes de outras regiões do País também se juntaram a nós. Algumas vieram do Amazonas, outras de São Paulo. Foi emocionante, os dois dias de profunda comunhão e troca de experiências. Uma das coisas mais lindas que me aconteceu foi ao final do simpósio: “maestrina, essa senhora quer falar com você”. Era uma senhora que fazia a limpeza dos banheiros. Ela me contou que havia assistido cerca de duas horas do simpósio, mas gostaria de ter participado do evento inteiro, porque tudo o que conversamos servia para ela também. Isso foi muito forte. Entendi que estávamos tratando de questões universais e não específicas do universo das mulheres regentes.

Em 2017, vamos realizar um segundo simpósio internacional em Montevidéu, no Uruguai. Espero que tenha frutos. Queremos sensibilizar diretores de teatros, de orquestras, bandas e instituições a convidarem mulheres para serem regentes. No primeiro simpósio, esteve presente o assessor de música da cidade de Montevidéu. Ele compartilhou com o público como foi o processo de seleção para regente da Filarmônica de Montevidéu. Nesta época, eu já tinha sido escolhida, mas não havia ainda assumido o cargo. Durante um ano, a orquestra realizou várias assembleias para decidir. Depois disso, foi apresentado ao governo uma lista tríplice: “foi muito difícil decidir por uma mulher regente. Se fosse uma escolha equivocada, receberíamos críticas incríveis”. Este depoimento foi fundamental para a gente entender porque muitas vezes não somos escolhidas para certos cargos. Ou seja, se espera muito mais de uma mulher do que de um homem.

Você se formou primeiro em Engenharia de Produção, uma outra área (além da regência) tradicionalmente dominada por homens. Na sua infância ou adolescência, houve alguém da sua família ou professor que estimulou você a escolher este caminho?

Talvez tenha algo na minha personalidade que me atraia para esse universo. Quando eu estudei engenharia, só havia duas mulheres na minha classe e oitenta rapazes. Certamente, isto tem raízes na minha criação. O meu pai era um homem muito interessante. Ele tinha uma indústria mecânica e, desde que eu era um bebê, ele me levava nesta fábrica. Embora eu brincasse de boneca, o mundo masculino era o meu mundo também. Hoje as meninas e os meninos têm muito mais interesses em comum. Antes, as divisões eram mais acentuadas. Eu estudei no Colégio Dante Alighieri, em São Paulo. No ginásio, os meninos estudavam pela manhã e as meninas à tarde – para você ter uma ideia de como vivíamos segregados. Na minha casa era diferente. Minha mãe sempre me apoiou, independente das escolhas que eu fizesse. Meu pai não me julgava diferente dos meus irmãos, no sentido de que ele me achava capaz de ser, por exemplo, sua sucessora.

Você é a regente convidada para o concerto Alma Brasileira, em homenagem aos 130 anos de Villa-Lobos. Qual a sua relação com esse compositor?

Villa-Lobos é o mais importante compositor brasileiro. Ele alcançou a maior transcendência e tem hoje uma aceitação e reconhecimento internacional. É um dos grandes compositores da historia da música. Villa-Lobos é nossa essência. Ele criou a cultura brasileira, do ponto de vista da música de concerto. Antes dele, a linguagem da música erudita brasileira estava em experimentação. Os compositores usavam motivos folclóricos para sua inspiração, mas era um movimento de construção incipiente, lento, pois era difícil se distanciar das fontes europeias. Villa-Lobos inventou esse Brasil, tão grandioso ele foi. Tecnicamente as obras são extremamente complexas, muito difíceis para os músicos, para o regente, para todos os interpretes. Estamos apresentando grandes obras do seu repertório como Choros n°10, Bachianas Brasileiras n°4  e o Momoprecoce. É um desafio muito grande. Eu me sinto honrada de fazê-lo. É um aprendizado infinito para muitas vidas e para mim também.

Acompanhe a maestrina Ligia Amadio pelo http://ligiaamadio.net/a/myblog/

 

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